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FORMART

Postado em 09/12/2014 as 10:29:29
Programa de Formação e Arte-Educação e Teatro


a) Objetivo:
Fortalecer os processos de organização e luta pelos DHESCAs por meio de processos formativos de educadores fundamentados na arte educação e formação política.

b) Histórico do programa:
Os movimentos sociais, diante da crise e das mudanças ocorridas no mundo moderno, precisam se atualizar constantemente para acompanhar o movimento histórico da sociedade e nela poder intervir de forma qualitativa.
 
A história do movimento social brasileiro aponta para a necessidade do protagonismo de novas lideranças, que possam dinamizar e potencializar sua atuação e, mais do que nunca, sair do ativismo. Isso exige conhecer a realidade, atualizando seus conhecimentos, buscar não só uma formação técnica, mas também artística e política para qualificar a luta pelos direitos humanos e pela transformação social.
 
Nesse sentido a UNIPOP, que vem se legitimando como uma ONG de Formação de atores sociais, quer desenvolver um programa específico para a formação de educadores já engajados em movimentos e para aqueles que buscam formação para compreender as lutas sociais em defesa e promoção dos direitos e por uma nova sociedade, justa e solidária, para um futuro engajamento político e social.
 
Na sua história de vida institucional a opção pela arte-educação e formação política foram eixos articuladores dos processos formativos, por acreditar que estes possibilitam às pessoas criar e recriar mundos, conhecer melhor a si mesmo e aos outros, aprender a olhar o outro com respeito e a conviver com as diferenças. É ainda o espaço que garante a interlocução da arte com a educação como direito de cidadania, constituindo-se em ferramentas político-pedagógicas de acesso e construção de conhecimento, articulando o artístico e o político aos demais eixos institucionais.
 
O exercício de colocar-se no lugar do outro, que o teatro permite, juntamente com discussões de situações vivenciadas pelas pessoas envolvidas no processo formativo, é um rico momento de compreender o sentido de estar no mundo, da ética do cuidado a partir da história de vida dos sujeitos e permite construir novas formas de olhar a sociedade, perceber as interrelações da parte e do todo, texto e contexto, global e local e a enfrentar os paradoxos da globalização que traz de um lado o desenvolvimento tecnoeconômico  e de outro uma grande exclusão, dando os elementos para trabalhar sua transformação.
 
É preciso deixar-se contaminar pelo ‘princípio da incerteza racional’ e descobrir que razão e desrazão integram qualquer tipo de cognição, mesmo que a ciência insista em não se deixar contaminar por itinerários mítico-mágico-imaginários, que sempre se encontram presentes em teorias, conceitos e métodos. A formação em arte e política faz bem o papel de articulador da parte e do todo e da construção do conhecimento como um exercício de ir e vir que caracteriza a práxis social em oposição ao ativismo.
 
A experiência da UNIPOP em desenvolver processos formativos articulando arte-educação e formação política vem desde sua fundação (1987) com o projeto Cala Boca já Morreu, do Núcleo de Cultura da UNIPOP, trazendo o caráter de experimentação teatral aos movimentos sociais, investindo na busca dos elementos necessários para a formação de atores sociais, pela arte-educação. Esse período efetivou ações envolvendo as comunidades eclesiais de base, as Igrejas, organizações não-governamentais e movimentos populares.
 
Dos resultados positivos desse projeto nasce o Porão Cultural da UNIPOP trazendo para o cerne da concepção metodológica a formação humana através da arte, criando-se o projeto Arte-Educação. A conjuntura e a própria formação dos educadores na sua dinâmica de atuação e prática política, além da constante sobrecarga de trabalho acabou distanciando a formação sócio-política da formação em arte-educação, embora esta continuasse a ser desenvolvida com grande senso crítico em relação ao contexto social. As constantes demandas dos movimentos sociais ao grupo de teatro da UNIPOP, formado por educadores sociais oriundos dos processos formativos no projeto de arte-educação demonstra sua sensibilidade política e o reconhecimento da qualidade de suas produções, sendo este o que tem maior visibilidade na mídia.
 
O curso de formação sócio-política de lideranças dos movimentos sociais foi sempre considerado o ponto mais estratégico e progressista dentre os processos formativos da UNIPOP, no sentido de que era o cerne da formação para o confronto entre capital e trabalho. Em geral, a grande demanda de participantes era de sindicalistas. O curso durava um ano porque a liderança tinha que saber todas as teorias revolucionárias para enfrentar o capitalismo. Isso redundava numa sobre carga de conteúdos e pouca reflexão sobre a prática política dos militantes. Por exemplo lideranças com discurso revolucionário, mas uma prática sindical autoritária, machista e centralizadora. A partir de 1998 com a criação da Escola Sindical da CUT, a presença dos sindicalistas diminuiu e novas lideranças foram aparecendo trazendo novas práticas de luta como o movimento negro, de mulheres, crianças e adolescentes, lutas populares por educação, moradia, direitos humanos, questão ambiental, entre outros. E no bojo desse processo, novos sujeitos coletivos, menos corporativos, foram sendo organizados como o Fórum de Reforma Urbana, Movimento Nacional de Luta pela Moradia, a luta contra a destruição da Amazônia, todos com o objetivo de mobilizar a sociedade para uma nova proposta de sociedade e desenvolvimento como o FAOR, ABONG, PAD, CAIC[1], entre outros. Essa movimentação foi influenciando a proposta pedagógica da formação de lideranças que pouco a pouco foi introduzindo o processo de grupalização, construção de identidade, a questão de gênero, raça, religiosidade, afetividade, respeito às diferenças e direitos humanos como componentes da disputa de projetos políticos de sociedade que provocavam a realidade que esses segmentos enfrentavam no seu cotidiano.
 
No trienal 2006-2008 a questão da crise de sustentabilidade das organizações, inclusive da UNIPOP; o refluxo dos movimentos sociais, o impacto da criminalização dos movimentos foi alterando a proposta pedagógica do curso tornando-o mais operacional no sentido de capacitar melhor as organizações para enfrentar essa situação como ferramentas pedagógicas de mobilização; elaboração de projetos; mobilização de recursos; além da análise de conjuntura e dos desafios da educação popular. Foi um período muito difícil para continuar motivando a tropa para os processos formativos. A realização do FSM em Belém foi o grande motivador e aglutinador dos movimentos e organizações que se dispuseram a formar os grupos de trabalho, o Comitê coordenador, a mobilização de suas bases, o aprofundamento do debate sobre Cultura e Política, realizado pelos GTs. Todos os processos formativos acabavam se relacionando ao processo FSM.
 
Os participantes do seminário avaliativo–participativo, realizado em abril deste ano, desencadeando o processo de construção deste Trienal, identificaram a necessidade de que os projetos Formação em Arte-educação e Formação Sócio-política tivessem uma maior interlocução no sentido de possibilitar aos movimentos sociais, entidades populares, às igrejas e as comunidades locais, novas ferramentas de luta e de formação a partir de uma educação fundamentada em novos valores, no aprendizado de ações coletivas e convergentes e no exercício permanente do diálogo para fortalecer o trabalho em rede, que se evidencia, cada vez mais, como uma alternativa eficaz para o enfrentamento das desigualdades sociais, da violação dos direitos humanos e da criminalização dos movimentos sociais. Esse trabalho coletivo, conforme diz Lao Tse: “Imagina-te como uma parteira. Acompanhas o nascimento de alguém, sem exibição ou espalhafato. Tua tarefa é facilitar o que está acontecendo. Se deves assumir o comando, faze-o de tal modo que auxilies a mãe e deixes que ela continue livre e responsável. Quando nascer a criança, a mãe dirá com razão: nós três realizamos esse trabalho.” ilustra o princípio da educação popular de que o conhecimento é construído por todos que fazem parte do processo; é um trabalho de coletividade, de tessitura de fios que fortalecem o trabalho em rede.
 
Nesse sentido, buscamos com este Programa trabalhar a formação de Lideranças e Educadores Sociais com dois cursos estratégicos considerados pelos participantes do seminário avaliativo como de qualidade muito boa, atende aos interesses dos movimentos e contribui para a formação de novos sujeitos, haja vista que muitos representantes das entidades presentes foram ex-alunos destes cursos. Entretanto, precisam ser retroalimentados com os eixos transversais para fortalecer tanto a formação política quanto humana. São eles: Curso de Formação Política, Cultural e Socioambiental e o de Iniciação Teatral e Arte-Educação e a manutenção do Grupo de Teatro Permanente da entidade, considerando o papel mobilizador e conscientizador que tem prestado aos movimentos sociais e religiosos além, claro, do movimento cultural, colocando a arte a serviço da Vida.
 
Essa opção se deu pelo fato de constatarmos os resultados importantes conseguidos pela arte-educação, que tem possibilitado mudanças na vida pessoal e profissional e engajamento político das pessoas participantes das atividades. Desta forma, unificar as atividades nos permite potencilaizar os resultados com os educadores sociais, utilizando as concepções e técnicas do teatro para desenvolver metodologicamente os temas políticos a serem discutidos.
 
público prioritário deste programa são lideranças populares, educadores sociais, agentes pastorais, gestores de entidades e movimentos sociais e arte-educadores, com idade a partir de 20 anos em diante, buscando-se o equilíbrio de gênero, raça e denominação religiosa na formação das turmas.