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Conheça Juliana Aleixo, militante, fotógrafa e professora

Postado em 02/08/2017 as 23:40:11

Por: Diego Teófilo da Agência Jovem de Notícias/ Fotos: Everton Lucas e Juliana Aleixo

Viver é fazer escolhas, passar por experiências e estabelecer conexões, estas características nos conduzem em determinados momentos de nossa vida. Estas mesmas caracteristicas foram primordiais para Juliana Aleixo, que em entrevista, nos conta sobre as escolhas, experiências, conexões e percepções determinantes em sua vida..

Ainda no ensino médio a hoje professora de Língua Portuguesa e Fotógrafa, Juliana Aleixo, enquanto secundarista dava os seus primeiros passos enquanto ativista, passando pela entrada na universidade, onde foi possível continuar seu processo de formação pela via acadêmica e pelo contato com professores engajados. Nessa caminhada de encontros e desencontros Juliana, entrou no movimento negro a partir do Coletivo de Juventude Negra do Centro de Estudos e Defesa do Negro no Pará – CEDENPA, se dividindo entre a sala de aula onde além de lecionar os conteúdos de sua disciplina também provoca seus alunos a refletirem sobre a realidade em que vivem, e na fotografia encontrou uma forma para retratar a poesia presentes nos rosto de pessoas da periferia.

1. Como começou seu engajamento com os movimentos sociais? Algum momento da sua vida te fez se aproximar disso?
Comecei como secundarista a partir da formação com professores do Ensino Médio que davam suporte na formação da consciência. Com a entrada na Universidade Estadual do Pará – UEPA, entrei pelo processo seletivo como estudante de escola pública. Ao sair da universidade comecei a trabalhar como professora e a militância tomou um outro formato, agora na docência, considero militância levando em conta o que faço na sala que formar cidadãos, trazendo o máximo de leitura social possível para dentro dos textos, contemplando o que existe dentro das Plataformas Curriculares Nacionais – PCN.
Em 2016, quando entro na Universidade Federal do Pará, para cursar Letras Francês, conheci o movimento feminista dentro da federal, mas forte e articulado que antes não conhecia. Entrei na universidade durante a explosão das grandes manifestações de junho de 2013, comecei a partir desse momento a entrar de fato no movimento social tendo contato com os grupos de teatro amador, onde fazíamos alguns trabalhos com letras de músicas para falar sobre feminismo.
No final de 2016, facilitei uma oficina de fotografia durante a ocupação da Universidade Federal Rural da Amazônia – UFRA, aproveitei que estava estudando fotografia e a vontade de colaborar com as ocupações, lá conheci Angélica Albuquerque que é militante do movimento negro e feminista negra, tendo contato com outro feminismo diferente que estava acostumada a vivenciar que era o feminismo academicista e branco, Angélica na sua oficina de turbante iniciou abordando o feminismo negro e em seguida falam sobre estética. A partir disso me engajei dentro do Centro de Estudos e Defesa do Negro no Pará – CEDENPA, e comecei a minha atuação como militante e contribuindo na área da fotografia e produção textual.

2. Como se deu o seu encontro com a fotografia?
Primeiramente comecei a pensar em concursos, pesquisei e cheguei na Polícia Federal na área de investigação minha zona de conforto é a pesquisa. No meu ímpeto de adolescente de acreditar que eu poderia ser uma investigadora criminal, pensei em que área pudesse seguir, descobrir a fotografia. Pesquisei e um professor me indicou a Associação Fotoativa, no final de 2015 e início de 2016, estava muito obstinada que eu faria o curso de fotografia e estudar para concurso público federal. Iniciei sem nenhum tipo de equipamento e vendo as partes iniciais da fotografia passando um mês sem tocar em uma câmera, trabalhando com outros materiais, depois viajamos para Ilha do Cumbu para ter noção do que seria fotografia de fato.
Todo formato da oficina do professor Miguel Chikaoka é poético, extremamente sensível, tudo que ele busca estimular do início ao fim é tua visão sensível, detalhes, o sentimento das coisas de uma forma muito simples e direta as vezes coisas que não estamos acostumados a ver, pois estamos acostumados a ver uma fotografia muito comercial. Quando encaramos a fotografia e a formação do professor Miguel agente ver que o fazer fotografia tá muito mais relacionado com a construção da arte do que simplesmente pegar uma câmera, enquadrar uma imagem, ter a técnica perfeita, que não é isso é sentir a fotografia de uma forma geral pegar um instrumento e saber que você tem uma responsabilidade muito grande com ele.

3. Os desafios do contexto escolar são diversos. Em sua atuação em escolas, tens conseguido articular a prática da sala de aula com a realidade em que os estudantes estão inseridos?
Estamos imersos em uma realidade que a gente não conhece a todo custo vivemos um sistema de mascarar a realidade de colocar certas ilusões na cabeça das pessoas e as crianças reportam isso com mais facilidade, na medida em que eu adentro a realidade delas e conheço tornar o ensino sensível na realidade de cada aluno, tento na medida do possível fazer trabalhos de esclarecimento de dizer pra eles o quanto a sociedade é racista, homofóbica, misógina, faço esse trabalho em cima das próprias atitudes deles, qualquer dúvida, questionamento ou reclamação de algum aluno já serve como exemplo para que visualizem que as ações deles estão dentro do discurso que combatem.

4. Diferente do que os jornais impressos mostram, dentro das periferias existem coisas boas, e só quem tem um olhar sensível consegue desconstruir os estereótipos. Nesse sentido, quais histórias escondidas você já conseguiu contar através da lente de sua máquina fotográfica?
Tenho uma relação de proximidade com crianças muito forte pelo ofício, mas o que eu encontro na periferia além do descaso e do abandono, eu encontro seres humanos dotados de sentimentos, expressão, que são expressões que não encontramos ou que não observamos no dia-a-dia tumultuado de uma cidade, expressões que remetem ao esvaziamento do que tu és e daquilo que tu compreendia como periferia porque são pessoas invisíveis, ao mesmo tempo elas tem tanta história, olhar, sentimentos que não sei descrever. Mas que todo fotografia que eu faço sugere aquilo que elas vivem. Geralmente as pessoas se isolam dentro de casa, mas na periferia não, elas colocam a cara na janela para ver agente, para observar o que tá acontecendo, elas têm uma relação interpessoal que é diferente da relação da cidade e é esse conflito de olhar que eu tenho. Uma das coisas que a mídia faz é desumanizar as pessoas da periferia, pela fotografia humanizamos as pessoas, pois é possível olhar as fotos e ver seres humanos. Uma vez minha mãe me questiono do porque eu recebia tantos elogios por fotos de crianças pobres se é tão triste a realidade delas porque a foto da pobreza é tão mais bonita do que de uma criança feliz brincando no parque com condições bem arrumada, tomada banho. Isso me levou a refletir sobre o que faço enquanto militante, registro e não penso que estou apenas registrando estou colaborando para que aquela realidade mude para que em um futuro não muito distante aquelas crianças tenham profissões.

5. A conjuntura nos impõe uma necessidade de estarmos organizados para defender nossas pautas e o que acreditamos. Como se deu o seu processo de engajamento junto a juventude negra?
Primeiro eu entrei por ter identidade negra, entrei com a leitura de que eu era afro-indígena sem mesmo saber o que era, pesquisei e comecei a entrar em um crise existencial muito grande por que as pessoas da militância tem a certeza do que é e quem não tem fica perdido. Então comecei a perceber o que acontecia comigo, não me via como uma oprimida e o contato com o feminismo negro me permitiu ver isso.
Esse processo não se deu de forma tranquila, passamos uma vida inteiras escolas sendo educados dentro de princípios brancos. Quando entramos no movimento precisamos fazer um resgate dessa nossa ancestralidade ou não fazer parte disso, mas eu aceitei a ideia de que precisava fazer parte da militância, ter a minha identidade, lutar por isso e ainda estou em processo.
Em minha atuação no Coletivo de Juventude Negra do Cedenpa, direciono minha atuação para conscientizar brancos e negros, acredito que não posso segregar, não penso ser o melhor caminho juntar a mim apenas os pretos e isso seja suficiente, preciso fazer com quem é branco reconheça os seus privilégios e possamos trabalhar juntos tendo empatia uns com os outros.

Fonte: Agência Jovem de Notícias

Link: http://www.agenciajovem.org/wp/conheca-juliana-aleixo-militante-fotografa-e-professora/